Conceitos que vão entrar na sua vida após o Pix

Escrito por: Spin Pay

Imagine um Brasil em que pagamentos são digitais, instantâneos, baratos, democráticos, simples, inclusivos, universais, abertos… Esse Brasil está quase aí, graças a chegada do Pix, que está cada vez mais próxima.

Carlos Netto, CEO da Matera destrincha o SPI e o Pix

Se você tem acompanhado a websérie Papo Pix, até então conhecida como Pixed, você já está por dentro do assunto, sob diversas perspectivas de players do mercado de pagamentos. Neste episódio, convidamos o CEO da Matera, Carlos Netto, também conhecido como TK, para explicar os termos técnicos por trás do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI). TK, além de dar exemplos divertidos e altamente ilustrativos, também é uma das mentes brilhantes por trás da construção do Pix.

Separamos os principais termos e conceitos que você precisa saber. Preste bem atenção, em breve essas pequenas grandes palavras passarão a ser parte da sua rotina!

O que é SPI e como funciona?

Em primeiro lugar, é preciso entender a diferença entre o Pix e o SPI.

O Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI) é a rede que faz as trocas de reservas, ou seja, onde o dinheiro vai ser efetivamente trocado. Já o Pix é o arranjo de Pagamentos Instantâneos.

Arranjo é uma coisa mais jurídica, é regra para você poder participar. A Visa é um arranjo, por exemplo, a Elo também. Então, se você quer ser um cartão Visa, você tem que seguir a regulamentação do arranjo Visa. É a mesma coisa com o Pix: se você participar do arranjo Pix, você tem que seguir regras do Pix, que vão ordenar o funcionamento de cada participante”, TK aponta.

Pera, mas o que é troca de reserva mesmo?

Troca de reserva é o que acontece quando uma pessoa transfere dinheiro para outra: um banco manda o valor para o outro. Caso queira recapitular, Cassio Damasceno explicou como TEDs e DOCs interbancárias são processadas pelo Sistema de Pagamentos Brasileiro e pela Câmara Interbancária de Pagamentos.

“No âmbito do Pagamento Instantâneo, o sistema que troca dinheiro entre bancos é o SPI. Cada banco vai ter uma conta chamada PI e quando houver uma troca de dinheiro entre instituições, sejam bancos ou fintechs, a troca de dinheiro é entre essas contas PI”, TK explica.

Modalidades de participação

Como sabemos, há duas modalidades de participação no Pix: o participante direto e o indireto.

Os diretos se conectam diretamente na rede do Banco Central (BC). TK tangibiliza o conceito, “trata-se de um fio, igual ao da banda larga da sua casa, só que é um fio de uma rede do BC e ele tem uma conta PI, isto é, um dinheiro guardado no BC que pode ser transferido para outros participantes. Basta tirar da conta dele e mandar para a conta de outro participante direto”.

Para Carlos, a criação do participante indireto vai abrir muito espaço para inovação: “uma figura muito legal, que eu não vi em outros lugares, é o participante indireto. Não sei se foi criação do BC, não sei de onde veio originalmente a ideia, que é muito interessante para esse papel da democratização do acesso”.

Participante indireto: um convite à inovação

Ser um participante indireto significa que você pode ser uma fintech que não está conectada diretamente ao BC, com aqueles “fios” que tem um custo fixo. “Você conecta, via internet mesmo, em um participante direto, e o participante direto é que vai operar o dinheiro para você. Na verdade, você vai usar um pedaço da conta do direto”, ele diz.

Isso possibilita que o indireto gaste menos dinheiro com conectividade, pois ele usa internet e gasta menos dinheiro com software.“Nós vendemos software para ambas modalidades. O indireto pega uma metade ou até menos da metade de um software para participar”, TK conta.

Uma grande massa de participantes são indiretos. Basta olhar o número de interessados em participar do Pix que chegou em quase 1000. Desse total, apenas 120 são participantes diretos. O resto é indireto. Segundo TK, “isso mostra que o BC acertou em cheio em criar essa figura”.

“O mais bacana é que o indireto não tem que ser uma instituição de pagamento (IP) autorizada”, TK aponta e depois completa “a IP não podia ter número de banco, fazer TED e emitir boleto, tudo isso tinha que ser feito através de uma instituição financeira (IF) e criava muita dependência. A IP virava quase que um correspondente bancário”.

Como uma IP poderia concorrer com uma IF se ela não pode fazer nada disso? Com o Pix o BC deixou a IP não integrante do SPB participar do Pix.

TK elogia esse avanço: “isso, pra mim, é muito novo, diferente e tem um potencial explosivo de inovação, pois realmente é uma abertura, um convite a todo empreendedor, startupeiro que quer fazer algo diferente. E é muito legal que isso vem do regulador. Em geral, a inovação vem da gente. Fazemos a inovação e o regulador vai lá e tenta regular o que foi feito. Neste caso, graças à relação que o regulador tem com a sociedade nessa criação coletiva, vem aí um ambiente muito promissor”.

Ok, temos certeza que o Pix trará incontáveis oportunidades. Mas, antes de conseguirmos vislumbrar toda essa revolução, precisamos entender os mecanismos que vão capacitá-la.

Decifrando o DICT

“O Diretório de Contas Transacionais (DICT) tem um poder enorme, é o motor da concorrência dentro do Pix”, TK afirma.

Como assim?

Para quem é bem técnico, podemos comparar o DICT com o Sistema de Nomes de Domínios (DNS) da internet. O endereço de internet de cada servidor é composto por números, para a gente não ter que ficar lembrando dessa sequência de números, o DNS os traduz em um endereço nominal, como o site do BC, por exemplo, bcb.gov.br.

Então, o que o BC fez? Reproduziu o DNS no Pix. Com o DICT, nós não vamos mais falar a nossa conta pelo número dela, a gente vai falar o apelido da nossa conta. Pode ser nosso número de celular, e-mail ou CPF.

TK explica isso na prática: você abre uma conta em uma fintech, não diz o número da conta para ninguém, assim como você não fala o endereço IP do seu computador. Você associa o número do seu celular à sua conta no DICT. A partir daí, você fala ‘pessoal, manda o dinheiro para o meu celular.’ Para quem tiver que te mandar dinheiro, basta olhar o cadastro de endereços do celular. Automaticamente, o app vai falar que você também está no Pix.

“É muito semelhante a quando vamos enviar uma mensagem no WhatsApp. Você descobre que um amigo já estava no aplicativo, pois você foi mandar uma mensagem e ele apareceu ali subitamente. Ninguém teve que combinar, o número de telefone fez a amarração. No Pix o número do telefone vai fazer a amarração graças ao DICT, que além de permitir que eu não conte o número da minha conta, vai permitir que eu mude de banco sem avisar ninguém”.

Quantas vezes você transferiu dinheiro para pagar alguém e aquela conta estava fechada? A pessoa provavelmente esqueceu de te avisar que tinha mudado de banco e você mandou o dinheiro para a conta antiga que estava cadastrada na sua lista de favoritos. Aí, vem um processo bem chato, demorado e burocrático para resolver isso.

Neste caso acima, com o DICT, a pessoa que fechou a conta tem a liberdade de trocar para um banco que cobre taxas mais acessíveis, bastando apenas fazer a portabilidade do número de celular dela. Você, como pagador, não precisa se atentar a isso, pode continuar mandando dinheiro para o celular do recebedor, que pode mudar para a instituição que lhe interessar mais.

“O consumidor vai ter de fato o direito de mudar de banco, o direito de escolha. Não adianta nada um ambiente competitivo, no qual você desiste de mudar de um banco para o outro pelo trabalho que terá para se desvencilhar das coisas que te amarram”,TK pondera.

“Então o DICT, tecnicamente é o DNS. Economicamente falando é o que vai dar liberdade e mobilidade”, ele completa.

Chaves de endereçamento? O que são?

“Chave de endereçamento é um jeito complicado de falar ‘o apelido da sua conta’, ou seja, uma chave que te identifica e te endereça”, TK diz e explica que há quatro tipos de chave de endereçamento.

  1. O número do seu celular: importante dizer que só é permitida uma conta por celular, se você tem três contas, não pode amarrar o mesmo número em todas;
  2. CPF: você só tem um, então precisa escolher apenas uma conta também;
  3. E-mail: você pode ter vários endereços de e-mail e amarrá-los a contas diferentes;
  4. EVP: um número bem grande gerado aleatoriamente (conhecido como Identificador Único Universal (UUID), para quem é técnico. “A chance de colisão é mínima, tem mais desses identificadores que átomos no universo, é coisa muito grande”, TK compara.

Qual a necessidade de um EVP?

Uma das formas de se pagar o lojista é o QR Code. Imagine chegar na padaria e na hora de pagar perguntar o número de celular da padaria, com 20 outras pessoas aguardando na fila… Muito complicado, não é?

Então o que a padaria vai fazer? Vai exibir um QR Code com a chave de endereçamento do estabelecimento. Todo o trabalho de pedir os dados e parar a fila é remediado com a leitura do QR Code. Só que, possivelmente, o dono da padaria não quer colocar nem o celular dele, nem o CNPJ da empresa. Neste caso, ele tem a possibilidade de gerar um EVP. “É um número grandão, que a gente não entende e não é pra entender mesmo,” TK brinca e completa “é uma forma da gente gerar QR Code sem ter que gastar o nosso número de celular ou CNPJ”.

QR Codes: estático, dinâmico e de apresentação

Teremos três tipos de QR Code no Brasil, sendo que dois deles nascem agora em 2020 e o terceiro chega só em 2021. Este ano, a gente terá QR Codes que serão sempre lidos pelo pagador, ou seja, o cobrador mostra e o pagador lê. Há duas variações: o estático e dinâmico. Para descomplicar, TK nos forneceu com exemplos práticos do dia a dia.

O QR Code estático é aquele que ficará no balcão da loja, tipicamente impresso, e todo o pagamento do dia vai ser feito através do mesmo QR Code. “Isso é muito legal para o vendedor de pipoca, ele cola o QR Code na pipoquinha dele e pronto, a gente consegue pagá-lo”, TK exemplifica.

O QR Code dinâmico é gerado a cada venda, ou seja, ele vence após ser usado uma vez. Então se você vai ao supermercado pagar um valor de R$20, o caixa gera um QR Code na tela com o valor específico daquela venda. Quando você for ler o QR Code, o banco ou fintech que atende o supermercado vai informar que o pagamento foi realizado e vai virar a tela, muito semelhante à experiência de se conectar ao Whatsapp pela web. “É bacana pois permite essa conciliação entre quem está cobrando e quem está pagando, o valor já vem no QR Code dinâmico”, TK explica.

É importante notar que o dinâmico pode ser impresso também, desde que seja para fazer um único pagamento. Contas mensais, por exemplo, poderão todas apresentar um QR Code dinâmico. “O Brasil é uma torre de papel de meio de pagamento. Pagar é o simples ato de mandar dinheiro de um lugar para o outro e a gente tem muitas opções para fazer isso. O Pix é um bom candidato para ser a língua universal, nosso esperanto”, TK argumenta.

O Pix será a forma mais barata de se fazer uma cobrança. Então as prefeituras, empresas de água, luz e esgoto, por exemplo, vão receber mais dinheiro se elas cobrarem via Pix. TK ainda antecipa, “é bem provável que comecem a usar o Pix para receber”.

Em 2021 chega o QR Code de apresentação. Aqui, há uma inversão, é o pagador que mostra a tela para o recebedor. Interessante apontar que nessa variação, há uma jabuticaba brasileira, bem inovadora e adequada à realidade do país: o usuário poderá estar sem internet para realizar o pagamento. Isso é um outro fator super relevante em termos de inclusão e para o crescimento do Pix.

“Isso é uma inovação do Brasil, a gente não conhece nenhum outro lugar no mundo que tenha pagamento sem internet. Estudos mostram que Pagamentos Instantâneos (PIs) crescem muito em comunidades mais carentes; em países muito ricos o PI não cresceu muito. Então, se você já tem esse conhecimento de mercado, nada como possibilitar o pagamento sem internet”, Carlos pontua.

TK também faz a seguinte provocação: “o que adianta você ter um celular que paga o Pix que é universal, todos aceitam e é super democrático, se você não pagou seu plano de dados? Você tem dinheiro para comprar um pãozinho mas não para pagar o plano de dados. Ou então, você é super bem sucedido, tem um iphone 15, sei lá qual é a última versão do iPhone e está no subsolo do shopping sem sinal; você morre na praia”.

Com esse QR Code de apresentação, seja você um milionário sem sinal no subsolo do shopping, ou alguém que não pagou o plano de dados, você pode realizar o pagamento mesmo sem internet. Basta gerar o QR Code e o lojista vai ler e receber o dinheiro. “Mas o lojista tem internet. Não é mágica em que os dois caras sem internet estão mandando dinheiro lá na nuvem. Ou seja, para gerar o QR Code, o pagador não precisará de internet, mas o recebedor precisará de uma conexão para fazer a leitura".

Essa terceira variação de QR Code além de ser mais inclusiva, ao possibilitar pagamentos sem internet, também tem a vantagem de ser mais ágil para lugares de grande fluxo, como catracas de metrô, por exemplo, ou eventos como o Rock In Rio.

E BR Code?

No Brasil foi definido um padrão de QR Codes chamado BR Code, que busca convergência. O BR Code parte da premissa que o Pix não vai ser um monopólio dos arranjos de pagamento. “Concorrência é bom até pro Pix”, TK diz e explica que o BC quis que um único QR Code, que é o BR Code, consiga englobar vários arranjos de pagamento.

Basicamente, no BR Code são codificados todos os dados do lojista, seja para receber via bandeira ou via Pix, por exemplo. Será possível colocar soluções híbridas de arranjos em um único QR Code no balcão da loja. “É bom pois o lojista não vai se limitar ao Pix ou à bandeira. O lojista quer vender o pãozinho para você do jeito que você quiser pagar, então ele abre a opção para o pagador escolher aquilo que mais lhe interessar”, TK explica.

PSP? Hããã?!

Falamos muito de quem está pagando e recebendo. Mas quem está controlando tudo isso? Conheça os provedores de serviços de pagamento (PSPs), um nome genérico dado aos bancos e fintechs. “O BC colocou fintechs e bancões no mesmo nível: PSP. Tudo isso em prol da concorrência”, TK afirma.

E agora, o que fazer com tanta informação? Criar!

Agora que você já sabe as principais siglas e termos que giram em torno do SPI e PIX, está na hora de pensar em como isso pode te impactar na prática. Já parou para pensar em novos modelos de negócio que poderão surgir pós PIX?

TK deixou uma dica para os criativos e empreendedores de plantão: “o Pix tem um detalhe muito legal, a possibilidade de mandar uma informação junto com o dinheiro que é enviado. Nessa informação é onde veremos muita criatividade”. Dito isso, ele sugere que pensemos no que poderia ser grampeado em uma célula para envio, junto ao dinheiro, que tivesse alguma utilidade.

Além disso, ele volta a bater na tecla da democratização, como vimos no último capítulo. Vamos pensar: dado que no Pix o dinheiro sai de uma conta A e vai para uma conta B, e entre essas contas, não há intermediários, apenas a rede do SPI, estamos partindo de uma linha de realmente baratear e viabilizar produtos financeiros.

Ele ainda dá um exemplo! Suponhamos que você quer montar uma ONG para emprestar dinheiro com juros baratíssimos, ou até sem juros, para uma comunidade carente. Você faz um empréstimo dividido em parcelas de R$10. Se for cobrado no boleto, uma grande parte do valor emprestado vai virar taxa de cobrança, dado o alto custo de se pagar via boleto.

“Você quer ajudar as pessoas, emprestando dinheiro com juros pequenos mas o custo operacional de cobrar as parcelas estraga todo o seu sonho”, TK indaga.

Com o Pix, o custo do BC é de um centavo a cada 10 cobranças, dando ao mercado a chance de oferecer um custo baixo também. Então, na ponta, pequenos empreendedores vão poder cobrar as 10 parcelas de um empréstimo de R$10 reais cada, por um centavo. “Olha o que isso vai habilitar de inclusão financeira”, ele afirma.

Enquanto vocês pensam na próxima disrupção, nós continuaremos mantendo vocês por dentro da visão de experts sobre o Pix. No próximo episódio, será a vez de grandes empresas como GOL, Cobasi e Pernambucanas contarem como o Pix vai revolucioná-las. Para receber o conteúdo em primeira mão, basta se cadastrar na Newsletter no final da página!

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