Pix, o propulsor da disrupção social

Escrito por: Spin Pay

Nessa Belíndia (Bélgica + Índia) que chamamos de Brasil, há um contingente de pessoas que não têm acesso a contas bancárias, cartões de débito e de crédito, enquanto apenas uma pequena parcela da população desfruta desses serviços financeiros. O acesso à smartphones, porém, é comum nos dois lados.

Nessa Belíndia (Bélgica + Índia) que chamamos de Brasil, há um contingente de pessoas que não têm acesso a contas bancárias, cartões de débito e de crédito, enquanto apenas uma pequena parcela da população desfruta desses serviços financeiros. O acesso à smartphones, porém, é comum nos dois lados.

O Pix combina tecnologia com inclusão para gerar uma disrupção social. Neste episódio de Papo Pix convidamos Juan Fuentes, ex- diretor geral do PagSeguro e atualmente conselheiro de empresas, para tratar da complexidade do nosso país e explicar como o Pix vai ajudar a equilibrar a disparidade socioeconômica.

Disrupção é definida pelo dicionário Michaelis como “quebra de um curso normal de um processo”. Vamos entender esse “normal” que vivemos e como ele será revolucionado pelo Pix?

O Brasil até agora: exclusão financeira

Juan define o Pix como “dinheiro virtual”. Ele explica que essa novidade do Banco Central (BC) visa substituir o uso do papel moeda, que ainda é configurado como o principal meio de pagamento para 71% dos brasileiros.

A taxa de informalidade no mercado de trabalho explica esse número espantador. O Brasil tem 38,08 milhões de trabalhadores informais, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse cálculo considera pessoas empregadas sem carteira assinada em setores como indústria e comércio, trabalhadores autônomos sem CNPJ e empregados domésticos sem vínculos formais, como diaristas, por exemplo. Durante a pandemia este número foi revisado para mais de 55 milhões de pessoas.

Para Juan essas pessoas “não são público alvo do sistema bancário atual; não se trata de uma opção pessoal não participar dessas modernidades”. Isso caracteriza uma das formas de exclusão financeira, dispostas no Relatório de Inclusão Financeira do BC: a exclusão de mercado, que associa-se ao fato de que uma parcela da população não está compreendida no público-alvo das estratégias de venda de certas instituições financeiras.

Segundo Juan, “os incumbentes: grandes bancos e adquirentes tradicionais estão acordando tarde demais”. Ele indaga o fato de existirem cidades no interior onde nem sequer há agências de banco: “a economia local funciona através de figuras modernizadas do que eram os antigos agiotas; tem caderno de fiado; todo um movimento de dinheiro e uma economia completamente paralela”.

“O que aconteceu, pela dificuldade de acesso, pela baixa rentabilidade ou até mesmo a miopia dos que estão tranquilos desse lado, na sua zona de conforto, foi-se negada a existência de todo um mercado, que, na verdade, é fértil para grandes oportunidades”, ele pondera.

Ele cita sua experiência no PagSeguro para ilustrar seu ponto. Fuentes explica que a empresa buscou como alvo o mundo desatendido de pequenos vendedores informais. “70% daquela base não aceitava cartão de crédito ou débito antes. Para atendê-los, criamos um modelo de adquirência muito mais simples do que é oferecido pelos bancos tradicionais”, ele conta.

A digitalização da moeda como forma de inclusão

O que acontece é que essas pessoas que foram negligenciadas pelo sistema financeiro tradicional tem necessidades como qualquer um de nós. E, assim, vêm surgindo uma série de fintechs que olham para esse mercado para desenvolver soluções adequadas.

Com a digitalização da moeda, que é o objetivo do Pix, Juan afirma que será muito mais fácil incluir aqueles que até agora não tinham outra opção se não o dinheiro vivo.

Isso porque embora informais, há uma esmagadora parcela de usuários de smartphones no Brasil. Dados mostram que o 4G se consolidou como a principal tecnologia de conexão móvel do país. Enquanto ela reúne 154 milhões de linhas, o 3G soma 43 milhões de acessos. Dados da Anatel apontam que 98,2% da população de 206 milhões de brasileiros têm acesso a internet móvel, enquanto 3,8 milhões de pessoas — ou 1,4% — estão ausentes dessa oferta de serviços.

Sabemos que com o Pix teremos uma reprodução digital da capacidade que um sujeito tem de tirar uma nota de R$100 da carteira para pagar uma conta. Ora, ao juntar o amplo uso de smartphones com a falta de participação no universo bancário, o Pix chega para sanar as dores de um público enorme que até pouco tempo foi inexplorado e ignorado.

“Então, se todo mundo tem um smartphone, qualquer um pode virar um pagador. Talvez seja um pouco mais restrito para ser um recebedor, pois essa figura precisa ter uma conta seja ela em uma instituição tradicional ou digital, já que o recebedor vai ter que amarrar seu número de telefone à conta que ele deseja que seja creditada”, Juan diz.

Durante a pandemia, com a distribuição do Auxílio Emergencial, veio a tona a quantidade de pessoas que são desbancarizadas, chamadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de “invisíveis”, mas possuem um smartphone. Então, fica claro que é possível transformar o aparelho celular em meio de pagamento, através da criação de contas virtuais e da digitalização da moeda.

“Soluções como a Poupança Digital Social da Caixa Econômica Federal são uma mola de propulsão para juntar esses dois mundos que não deveriam mas são separados social e financeiramente”, Juan explica.

O aplicativo CAIXA | Auxílio Emergencial teve 105,7 milhões de downloads e o aplicativo CAIXA Tem, para movimentação da poupança digital, ultrapassa 167 milhões de downloads. Dados apontam que a Caixa já pagou mais de R$ 121 bilhões para 65,2 milhões de pessoas, desde o início da pandemia, desse montante, foram movimentados mais de R$ 9,87 bilhões com o Cartão de débito virtual Caixa. O aplicativo possibilita que o cidadão faça transferências bancárias e ainda pague contas, como água, luz e telefone. Além disso, o app disponibiliza gratuitamente o cartão de débito virtual CAIXA. Com ele, é possível fazer compras pela internet, aplicativos e sites de qualquer um dos estabelecimentos credenciados. O cartão também é aceito em diversas lojas físicas.

Potencial de disrupção do Pix

“Pix significa trazer para o jogo um monte de gente que participa de um mundo à parte”, Fuentes afirma.

Como falamos, nesses dois pólos opostos que compõem o Brasil, um lado usa o dinheiro físico raramente e o outro, por baixíssima penetração de cartões de crédito e débito, acaba circulando o papel moeda em excesso. O Pix visa atacar este segundo lado e tapar os buracos causados pela falta de acesso à serviços financeiros para construir um sistema mais ágil.

Fuentes conta que a vantagem do Brasil é que a parte de pagamentos e interconexão de bancos é muito robusta e bem resolvida. “Trazer novas ferramentas que estarão incorporando o uso antigo do dinheiro à essa estrutura existente, trará uma forma muito mais eficiente de circular recursos. Afinal, custa muito caro imprimir, contar e transportar dinheiro; vide quanto se paga para sacar dinheiro de um caixa eletrônico que não é do seu banco”, Juan diz.

Seguindo essa linha, uma das possibilidades oferecidas pelo Pix será o saque em dinheiro no caixa do comércio, a partir do primeiro semestre de 2021. Esse novo serviço visa facilitar a vida do consumidor, excluindo a necessidade de um caixa eletrônico para sacar dinheiro, assim como a do varejista, cujos gastos com o manejo de dinheiro vivo também serão reduzidos.

O Pix também vai ajudar a fazer toda essa movimentação virtualmente. “Trata-se de mais uma ferramenta, não é única e nem exclusiva, de inclusão financeira. Isto é, o Pix vai juntar esses dois mundos: um cheio de opções e facilidades e outro que fazem de conta que não existe; embora ele continue crescendo e se desenvolvendo. Seja na periferia, como no interior da Amazônia, ou do Pará; lugares que tem uma vida econômica própria da região”, ele continua.

Pix: uma solução que veio para ficar

Além de dividir o Brasil em dois, Fuentes também faz questão de dissecar o comércio: “o varejo não é só o formal, o informal movimenta um grande pedaço da economia desse país”, ele explica.

Para o varejo estabelecido, formal, o Pix será mais um meio de pagamento. “Eu falo isso, porque será mais difícil fazer um Pix ao invés de puxar o cartão, para aqueles que têm acesso. Dificilmente, alguém vai ao supermercado e vai optar pagar com Pix, pois o controle e gestão das despesas é muito mais fácil pelo cartão. Do outro lado, vai ocupar um lugar significativo no mundo da informalidade. Por exemplo, será possível pagar o salário de uma funcionária doméstica via Pix”, Juan pontua. Isto é, com o Pix, um camelô, por exemplo, poderá receber sem ter que arcar com as altas taxas cobradas pelas adquirentes de cartão e também não ficará refém do dinheiro em espécie, quando ele quiser atingir outro público alvo.

O meio de pagamento é sempre um dos principais desafios para um modelo de negócio, seja ele formal ou informal. O Pix chega para trazer maior facilidade em toda a movimentação de recursos financeiros tanto para recebedores como pagadores; e para eles existe um conjunto de necessidades e serviços correlatos à essa nova estrutura de pagamento.

Por ora, sabemos que a combinação de características inerentes à inovações disruptivas com o viés de democratização de serviços financeiros, o Pagamento Instantâneo tem tudo para romper com o atual cenário do mercado de pagamentos e criar um caminho muito mais inclusivo, trazendo uma enorme parte da população brasileira para o jogo.

Os que eram inexplorados agora são alvo da exploração, no bom sentido, afinal os benefícios são inúmeros. Para analisar como o Pagamento Instantâneo tem reverberado em outros países visando entender como ele funcionará aqui dentro, convidamos duas experts no assunto: Giovanna Nahas da Oliver Wyman e Lais Carnival da La Fabrique que vão explorar o cenário global no próximo capítulo de Papo Pix. Fiquem ligados e cadastrem-se na nossa Newsletter no final da página para receber o conteúdo em primeira mão!

Pix e Meios de Pagamento

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