Impactos do Pix em bancos de atacado

Escrito por: Spin Pay

Às vésperas do lançamento do Pix, muito se fala de seus impactos no varejo e nas transações entre pessoas; de fato, serão inúmeros. Mas, você já parou para pensar no outro lado da moeda? Isto é, as implicações do Pix para as instituições financeiras que atendem o mundo do atacado. Pelo visto, o pagamento instantâneo vem para agradar a todos...

Às vésperas do lançamento do Pix, muito se fala de seus impactos no varejo e nas transações entre pessoas; de fato, serão inúmeros. Mas, você já parou para pensar no outro lado da moeda? Isto é, as implicações do Pix para as instituições financeiras que atendem o mundo do atacado. Pelo visto, o pagamento instantâneo vem para agradar a todos...

Neste capítulo de Papo Pix, batemos um papo proveitoso com dois mestres: Marco Mastroeni, Vice Presidente do Banco ABC do Brasil e Valter Pinheiro, Superintendente de Produtos de Digital Cash e Meios de Pagamento do Itaú BBA, no qual eles compartilharam suas expectativas e destrincharam os efeitos do Pix no segmento de bancos de atacado.

O que são bancos de atacado?

Primeiramente, vamos entender o conceito de um banco de atacado.

Valter explica que bancos de atacado são internacionalmente conhecidos como corporate ou wholesale banking, isto é, o atendimento e relacionamento comercial de bancos com grandes companhias.

O que o Pix significa para bancos de atacado?

Apesar de terem um carteira diferente de clientes de outros bancos, sob a perspectiva de bancos que atendem grandes corporações e indústrias, o Pix também representa um incrível potencial de substituição dos atuais meios de pagamento.

Uma empresa que se constitui hoje no Brasil pode ter necessidades como captar um investimento para qualquer desenvolvimento que ela queira fazer, uma relação cross- border-- receber e enviar recursos através de transações de câmbio-- entre outras, mas ela precisa primeiro de uma conta corrente; isto é, pagar e receber. Vamos lembrar que, essencialmente, o Pix paga, cobra e transfere.

Fatores como agilidade (até 40 segundos para creditar), eficiência e conciliação também são pontos fortíssimos para esse setor. “Imagine a eficiência que o Pix trará para as indústrias, químicas ou automotivas, por exemplo, quando forem pagar seus fornecedores e seus funcionários”, Valter vislumbra.

Para tangibilizar a importância da conciliação, Valter dá um exemplo prático: uma universidade que tem milhares de alunos. A instituição de ensino precisa de um instrumento de conciliação para entender como é a vida financeira de cada aluno perante a universidade. Além de ser instantâneo, o Pix vai trazer essa categorização de informação para quem está conciliando e gerenciando os pagamentos.

Isto é, o padrão tecnológico do Pix, o ISO 20022, possibilita que as transações carreguem informações adicionais de pagamento-- além do valor do pagador e do recebedor-- trazendo uma riqueza maior de informações.

Marco explica que, hoje, o ABC do Brasil vê o Pix influenciando o banco de três formas:

  1. Uma carteira na qual atuam com fintechs, justamente oferecendo banking as a service e serviços de cash: boletos transferências e pagamentos;

“Fornecemos isso para fintechs poderem oferecer esses serviços aos seus clientes e tem sido uma experiência muito importante de aprendizado e evolução das nossas estratégias que envolvem a questão do digital e tecnologia” ele diz.

  1. Ser um banco interveniente de participantes indiretos; aqueles que não querem ou não tem condições de participar diretamente do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI);

“Obviamente vamos oferecer todos os serviços que podem ser adicionados a isso, como ser o banco liquidante, abertura de contas em que a infraestrutura pode ser do ABC como também acompanhar a questão de lavagem de dinheiro”

  1. Uma sensibilização da estratégia de cash management.

O Banco ABC do Brasil oferece às grandes empresas carteiras de cobrança e de pagamento e transferências. “O Pix vai, em algum momento, estar presente nesse nível de transações e, por óbvio, o ABC não pode estar fora… Senão, passa a ser até ameaça se a gente simplesmente não fizer nada”, ele explica.

“Particularmente, eu acho que há aí um grande potencial de transformar toda a relação comercial entre as empresas. Então, por focarmos no B2B (empresa para empresa), o pagamento instantâneo precisa estar presente no nosso negócio, como todos os demais. Claramente, tem que trazer vantagem para o nosso cliente, ou então não faz sentido”, Marco conclui.

Os clientes B2B X Pix

Será que o Pix faz sentido para grandes corporações? Como será que os clientes B2B se sentem em relação ao novo método de pagamento?

“Desse segmento de clientes com os quais o ABC atua, corporate e large corporate, a grande maioria ainda está distante, pois está focada nos processos primários, como agricultura, por exemplo. Entretanto, há um setor muito sensibilizado pelo Pix, que é o comércio varejista. Esses, de fato, estão até a frente de diversos bancos em relação a isso; se formos ver os marketplaces, todos tem uma carteira digital e já trabalham em uma dinâmica parecida com o Pix. Esses são justamente os clientes que temos nos aproximado para estudar como o banco pode prestar um serviço melhor para eles”, Marco afirma.

Para ele, há uma diferença e assimetria de conhecimento dada a proximidade do principal setor que será impactado pelo Pix, que é o mercado de varejo.

Já Valter vislumbra alguns cenários no qual o Pix pode se destacar:

  • Pix como transação no recebimento: hoje, as utilities, empresas que distribuem água, luz, telefone e gás no mercado brasileiro, usam um instrumento chamado guias de arrecadação para aqueles que não fazem a aderência do débito automático. Para isso, o Pix traz naturalmente uma eficiência, com controle de conciliação e informação e dados históricos, com apenas um QR Code;
  • Pix como pagamento: além de acelerar, vai baratear todo o processo. Vamos pensar na situação de um bar e uma distribuidora de bebidas, que tem a logística como um grande ponto de apoio. Dependendo da compra que o bar fizer, da quantidade e do valor da compra, os modelos atuais fazem com que a competição logística fique deteriorada. Ou seja, dependendo do custo para receber a transação para essa distribuidora, faz com que talvez ela evite um determinado ponto de venda, um pouco mais distante, diante de toda a composição: custo, margem etc.;
  • Empreendedorismo: apps, jornadas e plataformas, que hoje estão muito preocupadas em nos atender diante do nosso comportamento digital. “Eu brinco que se a minha plataforma digital de música tocar um determinado estilo musical enquanto estou treinando, corre o risco de eu jogar o celular na parede (risos). Meu ponto aqui é que você tem novos players que podem incentivar essa revolução ao atrelarem toda essa composição de comportamento digital”;
  • Pix como propulsor de vendas: seja no varejo ou nas indústria. Dependerá muito da própria capacidade de absorção do brasileiro perante a ferramenta.

“É a constituição de novos negócios surgindo, a criação de oportunidades e inserção e a democratização do sistema financeiro como um todo. Tudo isso vai depender muito do Brasil ter uma aderência forte. Eu entendo que sim; na minha opinião ela vem em ondas ao longo do tempo”, Valter afirma.

Como está a articulação entre os bancos e o Banco Central?

“Eu diria assim.. bastante interessante (risos)”, Marco brinca e explica que há um desafio muito grande por parte dos bancos de adaptação ao Pix.

Ele conta que, até uns dois anos atrás, havia muita resistência em parte dos bancos, pois um sistema como o Pix ameaça uma série de mercados nos quais eles atuam. “Eu vivenciei bastante isso naquela ocasião. Acho que hoje as resistências não são mais essas. Os bancos de fato perceberam a necessidade e importância do Pix”, ele pondera e aponta que grandes bancos já estão com suas iniciativas próprias.

Há um desafio de transformação de tecnologia muito grande; não é só Pix, ele está se somando a uma série de outras demandas que o Banco Central (BC) tem feito, com o open banking, autorização de débito e uma série de outras coisas que envolvem investimentos em tecnologia bastante elevados e transformacionais.

“O BC tem mostrado o quão sério ele está tratando esse assunto e isso faz com que, de fato, os bancos se mobilizem também. Não tem sido uma conversa simples, mas acho que a competência que o BC vem tratando esses dois assuntos, open banking e Pix, tem passado ao mercado a seriedade que o assunto requer”, Marco diz.

Pix, um novo ecossistema financeiro

Se a princípio o Pix parecia uma ameaça, agora fica cada vez mais claro o seu enorme potencial de alavancar, ou até mesmo ressignificar, qualquer modelo de negócio, instituição financeira e/ou de pagamento. Quer seja pela agilidade, eficiência, drástica redução de custo, inclusão, colaboração com outras empresas ou expansão de suas bases, o Pix oferece benefícios para todos os players.

“Tenho um dado assustador de 2018: 80% das transações financeiras estavam concentradas em cinco dos grandes bancos”, Valter diz, sem revelar a fonte.

“O que chama atenção é que esses bancos provavelmente não tinham a capacidade de fazer o entendimento da jornada do seu cliente de ponta-a-ponta. Isso porque, na concepção de soluções que eles tinham até então, eles olhavam muito para a transação. Agora, esses bancos precisam de fato se reinventar para conseguir atender a jornada do seu cliente. Isso pressupõe uma série de coisas: plataforma aberta de soluções, declarar que talvez existam outras empresas, fintechs e bigtechs, que consigam abarcar muito mais inteligência na sua capacidade de oferta”, ele continua.

Ou seja, o foco está cada vez mais voltado à experiência do usuário. Quem não se atentar a isso, vai se tornar obsoleto.

Para provar isso, no próximo episódio de Papo Pix, contaremos com as perspectivas de representantes do Banco do Brasil, Mercado Pago e do Banco Neon. Fique ligado! Para conferir os episódios em primeira mão cadastre-se na nossa Newsletter no final da página.

Pix e Meios de Pagamento

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