Pagamentos instantâneos ao redor do mundo

Escrito por: Spin Pay

O pagamento instantâneo não é uma jabuticaba brasileira. Para implantar o Pix aqui no Brasil, o Banco Central (BC) seguiu uma tendência global.

O pagamento instantâneo não é uma jabuticaba brasileira. Para implantar o Pix aqui no Brasil, o Banco Central (BC) seguiu uma tendência global.

De acordo com uma pesquisa anual feita pela empresa de software de pagamentos, FIS, até o ano passado, cerca de 54 países possuíam sistemas de pagamentos instantâneos como o Pix. Neste episódio de Papo Pix, convidamos as experts Lais Carnival da Ingenico e Giovana Nahas da Oliver Wyman para analisar como pagamentos instantâneos têm reverberado mundo afora, contar um pouco sobre os cases internacionais mais interessantes e prever o impacto do Pix em território nacional.

Já dizia Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, que os tempos são ‘líquidos’ porque tudo muda tão rapidamente e nada é feito para ser ‘sólido’. Levando isso para o mundo de payments, vivemos em uma sociedade focada no “agora”, na qual consumidores demandam cada vez mais imediatismo, transparência e confiança quando vão transferir seus recursos financeiros. Essa tendência comportamental ultrapassa fronteiras e manifesta-se de forma semelhante em diferentes culturas. Vamos entender como isso tem se manifestado no universo de pagamentos instantâneos?

Fatores que impulsionam a transformação dos métodos de pagamento

O ecossistema de pagamentos é o resultado de uma série de fatores sociais e circunstanciais de cada país.

“A digitalização da população, a penetração de smartphones, o uso do dinheiro em espécie, o contexto regulatório e competitivo de mercado; todos esses são fatores que impulsionam a evolução do ecossistema de pagamentos”, Giovana pontua. “É claro que isso se contrapõe às tecnologias que estão disponíveis no mercado. Então, conforme vão aparecendo inovações tecnológicas, a tendência é que o mercado surja com novas soluções mais adequadas e confortáveis para o usuário”, ela continua.

Aqui no Brasil, Lais atrela o cenário de evolução de meios de pagamento a dois vetores principais: “a bancarização, ou melhor, a desbancarização-- ainda temos esse gap;e o alto custo de numerário. Não é um fator social, é econômico, mas isso faz com que a gente tenha que fomentar a competitividade”, ela explica.

To each their own, ou seja, cada um com a sua mania

Como tendência global, o pagamento instantâneo tem sido explorado por diversos países. A questão é que cada geografia teve um processo de implementação e conta com especificidades bem intrínsecas às suas respectivas realidades.

China

A China é dominada por dois grandes players: Alipay e Wechat. Giovana explica que essa foi uma condição muito específica do país por uma série de fatores:

  1. Na China, não havia uma penetração alta de cartões como temos no Brasil;
  2. O governo viabilizou parcerias entre os principais bancos e essas duas soluções;
  3. Alta penetração de smartphones.

“Com isso, essas duas soluções decolaram”, ela afirma.

Porém, como destaca uma matéria do Estadão, diante desse duopólio, “existe potencial para um uso distorcido do poder alcançado. É possível traçar um paralelo, ainda que grosseiro, com países ricos onde Visa e Mastercard são as principais plataformas de processamento de pagamentos por cartão. Ambas já enfrentaram a legislação antitruste nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na União Europeia.

AliPay e TenPay (mais conhecido pelo WeChat Pay) agiram de formas que sugerem desrespeito à concorrência – embora quase sempre uma contra a outra. Um exemplo: no WeChat, é impossível clicar em hyperlinks que levem a produtos oferecidos no site de compras do Alibaba. Já o Alibaba não permite pagamentos feitos com TenPay.”

Alemanha

Embora muitos países tenham aderido bem ao pagamento instantâneo, não podemos afirmar que a plena adesão é unânime. “A adoção do pagamento instantâneo na Alemanha não foi e não está sendo tão ágil”, Lais diz e atrela isso ao fato do governo ter feito uma parceria com alguns players e não ter fomentado o uso dessa alternativa de pagamento. “É apenas mais um método de pagamento que existe lá, mas não é aquela ‘coisa’ que nós vemos que de fato a sociedade está tirando proveito,” ela complementa.

Índia

A Índia também foi um caso bem particular e hoje em dia a Unified Payments Interface (UPI) é um dos casos de maior sucesso internacional.

Há muitos anos o governo indiano, junto com a National Payments Corporation of India (NPCI), tem lutado para substituir o uso de papel moeda e também para bancarizar a população. Desse objetivo, surgiu uma série de esforços e políticas, dentre elas, foi lançada uma bandeira nacional, a RuPay, como também uma rede de transferências interbancárias, em 2010.

O sucesso exponencial, porém, veio em 2016, com a UPI, que é uma camada de integração dos bancos e empresas: uma infraestrutura aberta para usar essa rede que foi estabelecida de transferência bancária. A UPI apresentou um crescimento foi responsável pela redução do uso do dinheiro, que é um dos maiores objetivos e benefícios de pagamentos instantâneos.

“Um case bacana é o desenvolvimento de novos negócios na Índia graças ao pagamento instantâneo. Aqui na Ingenico, nós fizemos uma série de pesquisas e vimos que a Índia teve um boom em pagamentos pois novas fintechs foram emergindo com esse novo meio de pagamento. Eles conseguiram fazer com que pessoas que nunca tinham feito uma transação digital na vida começassem a fazê-las, com a UPI, mesmo que não usassem cartões”, Lais aponta.

“A UPI é uma grande inspiração para o mundo pela sua versatilidade”, Giovana diz e explica que a plataforma permite que diversas empresas de tecnologia, bancos e fintechs se conectem e façam as suas próprias soluções e serviços de valor agregado.

EUA

Quando olhamos para os Estados Unidos, o contexto é diferente. Lá, os reguladores se envolveram pouco até o momento na questão de pagamentos instantâneos. Somente agora o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) está começando a pensar em como estruturar uma infraestrutura que seja comum para todos os participantes; o FedNow, previsto para 2023.

Até então, a maioria dos avanços foi resultado do próprio mercado. Nos EUA, surgiu a Venmo, desenvolvida por uma fintech e comprada pela Paypal, depois os bancos criaram uma solução de pagamento instantâneo chamada Zelle, que hoje faz a conexão com mais de 800 instituições financeiras. “Lá, essas diversas soluções coexistem e vão se inovando, são compradas… Enfim, o mercado americano é bem dinâmico nesse aspecto,” Giovana considera.

“Eu acho que o Brasil pode até servir como case para os EUA, pois vamos ver primeiro o que vai e não vai funcionar, da mesma forma como nós olhamos para a Índia e China antes de desenvolvermos o Pix ”, Lais comenta.

Impactos do pagamento instantâneo no mercado internacional

A adoção do pagamento instantâneo traz uma série de benefícios aos países que o incorporam.

Para Giovana o principal impacto é a substituição do uso do papel-moeda. O uso do dinheiro em espécie tem uma série de problemas associados: o custo alto, o elemento de segurança-- as lojas tem que fazer sangria constante para não ficar com o dinheiro parado alí-- e tem também o aspecto da formalização da economia. Com meios digitais fica mais fácil mapear como estão sendo feitas as transações e, com isso, fazer controles melhores de lavagem de dinheiro e corrupção. Além disso, há uma redução de outros custos, o que o torna um meio de pagamento muito acessível e um aumento de bancarização.

“Eu acredito que o pagamento instantâneo está afetando o mercado como um todo. Muitos players, principalmente os grandes, que estavam trabalhando há anos da mesma forma, estão sendo forçados a se movimentarem e acelerarem essa inovação. Isso é super benéfico, para que a sociedade, o mercado e as empresas se reinventem”, Lais afirma.

Mas, e aqui no Brasil?

Quando olhamos para o Brasil, de uns anos para cá, houve um desenvolvimento muito grande do ecossistema de pagamentos. Assim, instituições de pagamento foram se desenvolvendo, houve um aumento de ‘maquininhas’ e isso aumentou a penetração de cartão no Brasil. O BC tem assumido um papel de liderança muito importante nessa onda de inovações.

Como sabemos, o desenvolvimento do Pix também é liderado pelo BC. “Desde o backend da infraestrutura de transações até o frontend com a marca Pix que vai ser reconhecida pelos usuários. Esse perfil de implementação se assemelha, apesar de algumas diferenças, à Índia e ao México, onde seus respectivos bancos centrais tomaram mais a liderança do desenvolvimento do ecossistema”, Giovana diz.

Para Lais, o fato dessa inovação ser muito fomentada pelo BC torna a adoção da tecnologia muito mais fácil. “Por mais que os brasileiros tenham cada vez mais celulares e smartphones, sabemos que a adoção de uma tecnologia e de pagar de uma forma diferente é uma mudança de comportamento. Então, eu acredito que o governo acaba sendo um motor de tração aqui no Brasil e isso facilita a adoção da tecnologia. A principal diferença é ser fomentado pelo governo”, ela conclui.

Pix: Admirável Mundo Novo

“O olhar tem que viajar” era o lema da icônica Diana Vreeland. Parece que o BC levou isso em consideração ao estudar a criação e implementação do Pix aqui no Brasil. Afinal, foi olhando para casos de êxito e até mesmo de insucesso em outros países que adaptaram essa revolucionária forma de pagamento ao nosso solo tupiniquim.

“Eu tenho uma frase clássica na qual eu brinco que ninguém acorda de manhã e quer ter a melhor experiência de pagamento da vida. Ninguém acorda e querendo realizar um pagamento. O ato de pagar é uma coisa que você precisa fazer e quanto menos fricção tiver, melhor”, Lais conta e explica que depois que quebrarmos essa primeira barreira, vamos prestar mais atenção no pagamento como uma ação e não algo que passa despercebido.

O Pix será um meio para que a gente comece a olhar para outros problemas de uma forma mais atenciosa. Para Lais, “o Pix vai acelerar novos comportamentos, o que é muito difícil. Mas novos padrões de comportamento vão emergir dessa nova solução”.

Embora o pagamento instantâneo operacionalmente seja volátil às particularidades de cada país, os impactos positivos parecem ser os mesmos. Novembro está quase aí para tirarmos as nossas próprias conclusões. Por ora, Giovana prevê que “o Pix vai colocar o Brasil na mesma página que vários países desenvolvidos e em desenvolvimento que estão implementando suas plataformas de pagamento instantâneo. Além disso, uma oportunidade próxima que imaginamos para pagamento instantâneo são as transações internacionais que ainda são muito difíceis e custosas para empresas e pessoas. Uma vantagem é que o Brasil tem buscado seguir padrões internacionais e isso facilita com que no futuro os sistemas sejam interoperáveis”.

Embora baseado em vários outros modelos de pagamento instantâneo, o Pix apresenta um modelo feito sob-medida para a realidade brasileira. Como vimos, ter o BC como alicerce dessa inovação certamente fará com que a implementação ocorra fluida e plenamente.

No próximo capítulo de Papo Pix, contamos com a participação de Valter Pinheiro do BBA e Marcos Mastroeni do ABC para abordar o impacto do Pix nas instituições financeiras voltadas ao universo do atacado. Para conferir as novidades do Papo Pix em primeira mão, inscreva-se na nossa Newsletter no final da página!

Pix e Meios de Pagamento

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