Do Escambo ao PIX

Escrito por: Spin Pay

A humanidade levou milênios para chegar ao papel moeda, porém, nos últimos 70 anos, conseguimos dar um salto enorme, até chegarmos a uma forma de pagamento quase invisível, o Pagamento Instantâneo.

Edson Santos

Antes de começarmos a falar de PIX, vamos dar uma breve revisitada na história milenar dos meios de pagamento. Eis aqui o primeiro capítulo da série PIXed.

Mesmo antes da existência do conceito de dinheiro, seres humanos já tinham a necessidade de efetuar trocas. Para entender de onde viemos—no âmbito de payments, as questões existenciais a gente deixa para o divã—entrevistamos Edson Santos, que tem mais de vinte anos de experiência nesse mercado e é autor do livro “Do Escambo à Inclusão Financeira – A Evolução dos Meios-de-Pagamento”.

A história e evolução dos meios de pagamentos no mercado brasileiro

Segundo Santos, tudo “começa sempre pelo fato de que se existe comércio, o pagamento acontece ou tem que acontecer”.

A primeira manifestação da economia mundial foi o escambo, trocas entre indivíduos sem o uso de moeda. Desde então, passamos a usar a mercadoria-moeda, como sal, tabaco, gado e o ouro, este último entrou em uma fase posterior.

O ouro apresentava três vantagens em relação às outras mercadorias moedas: ele gerava a possibilidade de divisibilidade, a facilidade de transporte e o elemento raridade, ou escassez (o que aumenta seu valor). Seu uso durou até o fim da primeira guerra mundial, em 1914. E então, as cédulas de papel ganharam espaço.

Embora a evolução dos meios de pagamento no Brasil tenha seguido o mesmo caminho que outros países no passado, o fato de termos vivido décadas de alta inflação e instabilidade econômica, principalmente a partir dos anos 70, criou a necessidade de mover dinheiro de forma rápida. Como Edson coloca, “nós [brasileiros] chegávamos a enviar mercadorias de avião para poder receber mais rapidamente, porque quando você vivia, por exemplo, com uma inflação de 100% ao mês, ganhar uma semana [de tempo] poderia significar, em uma conta de padeiro, 25% a mais de valor. Então, o que aconteceu? Nós criamos um dos melhores e mais sofisticados sistemas bancários, não porque a gente tem mais tecnologia que o resto do mundo, mas a necessidade e a dor fizeram isso acontecer.”

O cartão de crédito veio ao Brasil em 1954 mas teve dificuldade para evoluir, até que chegou a estabilidade financeira e econômica com o Plano Real. Mas o cartão de débito, quando chegou no país, no final da década de 90, já encontrou um sistema bancário pronto para ele, então se expandiu com mais facilidade. Aqui, vemos uma transição cada vez mais significativa do dinheiro para o plástico.

O ‘Tipping Point’ do crédito

No contexto brasileiro, de acordo com Edson, é a partir da estabilização econômica que ocorre uma mudança significativa nos meios eletrônicos de pagamento. “O Plano Real trouxe essa estabilização e a partir dali, o fato de o lojista receber o dinheiro somente trinta dias depois, quando o pagamento é feito via cartão de crédito, deixou de ser tão importante,” Santos explica e aponta que o Brasil tem uma diferença em relação aos outros países, na liquidação do cartão de crédito: desde 1984, nós liquidamos o estabelecimento comercial em trinta dias após a transação comercial. No resto do mundo, o prazo é de dois dias.

Durante a época da inflação, o cartão de crédito era interessante para o comprador mas não para o recebedor. De um ponto de vista comercial, não era interessante receber apenas trinta dias depois, então poucos lojistas gostavam de aceitar o cartão de crédito e esse ficava restrito à grandes capitais e segmentos muito específicos. Com a estabilidade econômica, essa barreira desapareceu, não havia mais tanta diferença entre receber na hora ou trinta dias depois.

“O mercado passou por uma transformação... por um crescimento espetacular, que a gente vive até hoje, um crescimento de dois dígitos,” Edson arremata.

Do mata-pulga à inclusão financeira ao PIX

Você se lembra dos tempos em que para passar um cartão de crédito em um recinto era necessário o uso de um instrumento cujo nome coloquial era “mata pulga”?

Depois da estabilidade econômica, veio a automatização da captura da transação feita com o cartão. Antes disso, era feita uma captura manual (com o “mata pulga”), que era trabalhosa e demorava muito. Hoje, a transação é feita em terminais de captura, o que passa a percepção que o pagamento foi feito em segundos.

Essa evolução dos meios de pagamento influenciou, positivamente, a inclusão financeira no Brasil. “No mundo, você tem um pouco mais de 2 bilhões de adultos que não tem uma conta bancária. No Brasil esse número diminuiu bastante, a partir de 2013, por conta do surgimento e da regulamentação da conta de pagamento e por conta da oferta dessa conta de pagamento por todos os meios de pagamento, principalmente as fintechs,” ele aponta. Hoje, cerca de 13,5% de adultos brasileiros não têm uma conta bancária e estão excluídos de serviços financeiros.

Às vésperas do PIX, solução de Pagamentos Instantâneos do Banco Central do Brasil e mais uma inovação visando inclusão financeira, Edson explica que o principal objetivo desse arranjo de pagamentos é a substituição do papel-moeda, que ainda é a forma de pagamento mais utilizada no Brasil. “Na verdade, não é bem assim que a coisas acontecem. Normalmente, um meio de pagamento novo nunca substitui totalmente o anterior, na verdade ele vem para complementar e preencher algumas lacunas”, ele complementa.

O PIX como evolução disruptiva

Para Edson, o PIX tem aspectos tanto de inovação evolutiva como também de evolução disruptiva, mas a predominância está nesse último.

Embora Santos nos alerte que “temos que esperar para ver os resultados”, ele explica que o PIX aplica os ‘6 D’s de crescimento exponencial’, isto é, ele nasce em um formato digital, é disruptivo e ele desmaterializa uma série de processos dos meios de pagamento, ao simultaneamente executar a autorização e a liquidação. Se ele desmaterializa, ele desentermedia.

Edson explica, “hoje, quando você usa um cartão de pagamento para fazer uma transação, mais de 25 empresas tiveram que trabalhar, ou estão trabalhando no backend, para que essa transação ocorra. No PIX, você quase não vê a maioria dessas empresas participando. Então, você tem uma desmaterialização e uma desintermediação. Essa última automaticamente leva a uma desmonetização; não é que o dinheiro desaparece mas ele diminui significativamente e com isso, vem a democratização.”

A evolução dos meios de pagamento em um país complexo e diverso como o Brasil é fascinante. Fica claro que há uma busca incansável por transações mais simples, convenientes, seguras e rápidas. Seria o PIX a resposta?

Essa síntese do passado é apenas um aperitivo da revolução que será gerada pela implementação de Pagamentos Instantâneos em território nacional. Até lá, vamos continuar conversando com mestres do mercado para manter vocês PIXed, isto é, na crista da onda sobre o PIX, fomentando o debate e sanando dúvidas.

No próximo capítulo de PIXed, pintaremos detalhadamente o cenário atual dos meios de pagamento e como o PIX se encaixará nesse contexto. Para receber em primeira mão o conteúdo PIXed, cadastre-se na nossa Newsletter, no final da página.

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