O que o Pix tem a ver com democratização?

Escrito por: Spin Pay

Por que meios de pagamento devem ser democratizados?

Boanerges Ramos Freire fala sobre como o Pix acelerará a democratização de serviços financeiros

O pagamento vai muito além de uma simples troca. Reflete vidas, hábitos de consumo, sonhos, expectativas, níveis de educação, valores (princípios e financeiros), entre outros fatores sociais que compõem uma sociedade. Por isso, deve ser democrático. Neste episódio de Papo Pix, convidamos Boanerges Ramos Freire, Presidente da Boanerges & Cia. Consultoria em Varejo Financeiro, para explicar a democratização no universo financeiro, que se faz cada vez mais urgente, destacando como o Pix acelerará esse processo.

“O dono de uma empresa, seja grande, média ou pequena, ao receber um pagamento, está concretizando uma parte fundamental do seu negócio, que gera valor, leva serviço, cria oportunidade para o consumidor. Mas esse serviço ou produto também precisa ser devidamente remunerado. Para isso, o processo de pagamento tem que ser simples, seguro e efetivo: é um momento fundamental no processo de servir bem ao mercado e fazer um negócio prosperar”, Boanerges explica.

O que é democratização bancária?

Democratização é o processo de tornar algo democrático. Democracia, por sua vez, como dizia Abraham Lincoln é o “governo do povo, pelo povo, para o povo.”

Quanto à democratização bancária, “seria melhor ampliá-la, chamá-la de democratização de serviços financeiros, que não precisam necessariamente de bancos”, Boanerges pondera.

Então, o que é democratização de serviços financeiros?

A democratização de serviços financeiros vai muito além do âmbito bancário, pode ser promovida por varejistas, fintechs e outras empresas. Boanerges explica que “democratizar serviços financeiros significa dar acesso, permitir que qualquer pessoa de qualquer classe, raça, geografia e condição social tenha acesso às soluções financeiras”.

Esses serviços financeiros são mais amplos que o pagamento, que tem a ver com a transação de comprar e vender, transferindo recursos de um lado para o outro e liquidando essa transação. Além do pagamento, Boanerges pontua algumas outras relações básicas que caracterizam o mundo de soluções financeiras:

  • Crédito: de um lado, alguém que precisa de recurso financeiro e do outro alguém que tem um excesso dele, relação normalmente intermediada por instituições financeiras;
  • Seguros: em uma ponta alguém que precisa proteger patrimônio ou a vida e na outra alguém que está disposto a assumir esse risco de oferecer proteção, normalmente empresas de seguros;
  • Fidelidade: quem quer ser recompensado por sua fidelidade e quem oferece essas recompensas, ou seja, retorno por uma maior fidelidade.

Democratizar essas relações significa, além de dar acesso, universalizar a possibilidade de usar esses serviços de uma maneira consistente, com um baixo custo, para que as pessoas sintam as suas necessidades básicas financeiras sendo atendidas. “É preciso desse nível mínimo de condição, o serviço financeiro faz parte das necessidades básicas. Isso permite às pessoas o desenvolvimento de suas possibilidades, crescimento como cidadãos, para que se eduquem, trabalhem, tenham acesso a bens e serviços. Assim, parece que são coisas diferentes e distantes, mas ao contrário, a democratização de serviços financeiros é uma parte fundamental de uma sociedade democrática e aberta em que as pessoas são cidadãos plenos,” Boanerges afirma.

Brasil, também conhecido como Belíndia

O acesso a serviços financeiros tem muito a ver com o desenvolvimento de um país. Aqui no Brasil, a democratização de serviços financeiros é um processo que está em pleno desenvolvimento. “Não somos um dos países mais avançados no assunto mas também não somos os mais atrasados. Nesses dois extremos, estamos mais próximos de quem está avançado do que quem está caminhando mais devagar,” Boanerges diz e depois explica “mais próximo não quer dizer que nós estamos em uma posição satisfatória, só que estamos em uma posição acima da média. Lembrando que, se olharmos o mundo inteiro, em geral, a média é ruim.”

O Brasil é frequentemente chamado de Belíndia: uma mistura da Bélgica, um país rico, com a Índia, um país extremamente pobre; aqui convivem realidades gritantes típicas de primeiro e de quarto mundo. Para Boanerges, “a gente ainda tem muito mais de Índia do que de Bélgica aqui, mais pobreza do que riqueza. Eu sou do interior de Pernambuco e conheço bem a realidade de um Brasil profundo que é muito diferente daquilo que sempre aparece nas telenovelas, naquela cara bonita do país, feliz e turístico.”

Como chegamos lá? Escolhas

Com a participação das pessoas, isto é, incluir a grande parte da população que continua negligenciada. Assim, conseguimos caminhar em direção a um país mais justo, igualitário, e com melhor distribuição de renda.

Boanerges explica que para isso, precisamos passar por questões estruturais, nosso desenho de país, mudanças de modelo econômico e político. “Só vamos conquistar essa maioridade como nação quando dermos condições para as pessoas participarem. Não é só um voto na eleição a cada dois anos que dá essa plenitude”, ele afirma e explica que é necessário dar condição de renda, uma condição financeira básica, que garanta a sobrevivência e na sequência, educação.

Assim, as pessoas passam a ter consciência de sua participação na sociedade e de seu papel de cidadão. “Cada decisão que você toma, além do voto, que é uma decisão importantíssima, comprar algo, seja para uma necessidade básica ou não, escolher uma marca ou outra, escolher um varejista ou outro, adotar uma solução financeira de uma instituição financeira ou de uma fintech, estudar ou não estudar, o que estudar... Claro que tudo isso está ligado à condição financeira e ao nível de acesso”, Boanerges diz.

Cada escolha dessas tem um efeito mais amplo, que se espalha pela sociedade e que valida certos caminhos e invalida ou diminui outros.

Pix como caminho para a democratização de serviços financeiros

O Pix foi desenhado com vários propósitos. Entre eles, um aspecto fundamental é viabilizar serviços financeiros a uma parcela maior da população, provando sua natureza altamente democrática.

“O Pix não exige que você seja ‘bancarizado’, então se você tem um CPF, um celular, se você está vivo e tem algumas condições básicas, você já é elegível a participar do Pix. Basta abrir uma conta digital, muito rápido e simples,” Boanerges explica.

Isso significa que quem estava exclusivamente no mundo do dinheiro passará a ter acesso a opções que hoje estão fora do alcance. Empregadas domésticas, vendedores ambulantes, marceneiros e prestadores de serviço que costumam ser remunerados em papel moeda, poderão substituir o dinheiro físico, sem que haja a necessidade de ter uma conta corrente ou pré-paga, sem pagar tarifas para ter a conta ou transferir recursos.

Assim, as pessoas passam a ter uma familiaridade com serviços financeiros. Conseguem ter um registro da sua vida financeira para poder eventualmente controlá-la melhor. Esse registro também vai demonstrar melhor como é o fluxo de entrada e saída de valores e potencialmente mostrar a capacidade de eventualmente ter acesso a crédito ou fazer uma poupança.

“Isso é revolucionário, é um outro patamar de vida e inclusão financeira na sociedade”, Boanerges diz. “Por isso, o Pix tinha que ser feito além das trilhas tradicionais do mundo bancário, para atingir todos esses objetivos de inclusão, democratização e funcionalidade plena. Não dava para ficarmos presos aos modelos existentes”, ele completa.

O meio de pagamento, deve ser mais um meio do que um fim. O Pix tem como essência servir a sociedade, ao oferecer mais uma opção de se pagar e receber recursos financeiros, que é totalmente focada na eficiência, “é muito menos business e muito mais prestação de serviço à sociedade,” Boanerges arremata.

O grande desafio

Agora, é hora de educar as pessoas sobre essa revolução que o Pix trará. Segundo Boanerges, “é preciso engajar a ponta: os dois lados que fazem a mágica acontecer, o vendedor e o pagador. Temos varejistas de todos os setores, diversas regiões, e tamanhos no Brasil. Precisamos garantir que o Pix chegue também aos pequenos, que estão em cidades menores e na periferia, para eles conhecerem, entenderem e experimentarem. Trata-se de um processo de envolvimento, aculturação e educação”. A mesma necessidade se aplica aos compradores e pode partir do varejista a iniciativa e o desafio de ensiná-los.

Porém, antes de ensinar é preciso aprender. No próximo capítulo do Papo Pix, Carlos Netto, CEO da Matera, nos elucidará sobre todos aspectos técnicos por trás do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI). Para manter-se informado, cadastre-se na nossa Newsletter no final da página!

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