5 coisas sobre meios de pagamento e como o Pix vai mudar tudo

Escrito por: Spin Pay

Por que demora tanto e custa tão caro para que um pagamento seja processado?

Cassio Damasceno descomplica meios de pagamento

Há um moroso e custoso, embora resiliente e poderoso, sistema de processamento por trás das transações de pagamento realizadas no Brasil. Neste capítulo do Papo Pix, vamos explicar o cenário atual e como ele será revolucionado pelo Pix, sob a ótica do Head de Produtos da Zoop, Cassio Damasceno.

1. O que Carlos Drummond de Andrade tem a ver com payments?

O modelo atual de meios de pagamento muito lembra o poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade:

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história

Isto é, um ciclo vicioso e tumultuado, que não serve às particularidades e necessidades de cada um. Vamos entender isso melhor abaixo.

2. As TEDs e DOCs foram popularizadas com a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB)

O SPB foi criado em 2001, para que agentes econômicos pudessem transferir recursos entre si, através de um sistema de transferência de reservas, como também para processar e liquidar pagamentos de pessoas físicas, jurídicas e demais entes. Naquela época, o valor mínimo aceito pelos bancos para se fazer uma TED era R$ 5 milhões.

Como funciona?

“Cada banco tem uma conta reserva no Banco Central (BC), e lá fica o dinheiro que pode ser trafegado. Se o BC recebe R$ 100 milhões, por exemplo, em uma conta corrente, uma parte desse dinheiro pode ser colocada em uma conta reserva, e então pode-se trafegar o montante com os outros players do mercado,” Cassio explica.

Ele também pondera a dificuldade de se conciliar e controlar diariamente tamanha quantia de débitos e créditos entre as contas reservas do BC. Acontece que, após a criação da Transferência Eletrônica Disponível (TED), houve um enorme aumento de transações.

3. Cerca de 7 milhões de TEDs são processadas pela Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) por dia

Foi justamente pelo volume mencionado acima que surgiu a CIP, um catalisador de todo esse processo, que permitiu ao mercado financeiro um aumento no volume de TEDs, sem que houvesse grande impacto no backoffice dos bancos. Segundo Cassio, “todas as TEDs abaixo de R$1 milhão passam pela CIP, o que significa mais ou menos 99% de todas as TEDs do país. Sem a CIP, o processo ficaria muito lento, pelo menos em 2001, seria difícil de se fazer a conciliação na conta reserva. Isso otimizou o sistema financeiro como um todo.”

Como funciona?

Cada instituição financeira possui o que é chamado de “conta liquidação" na CIP, na qual elas colocam o somatório de seus respectivos saldos e conseguem movimentá-los entre si. Então, a cada TED, entre as milhões que são feitas, de um banco para o outro, o valor é debitado da conta existente do banco na CIP e transferido para a conta reserva da instituição recebedora na CIP, que, por sua vez, faz o crédito do valor referente à transação na conta do cliente que recebeu a TED. Ou seja, o dinheiro só passa por 1 ou 2 processos na conta reserva: um de compensação e um de liquidação. O primeiro ocorre quando a CIP soma o que tem que ser transferido de um lado para o outro. Já o segundo, a liquidação, é o ato de pagar em si.

Ocorre que, além de caras, as TEDs e DOCs, só podem ser feitas dentro de determinados horários. Essa indisponibilidade 24/7 atrapalha quem quer realizar ou receber um pagamento. No mais, para que uma TED seja processada, são necessários diversos intermediários, o que complica muito o processo.

4. O processamento nos cartões de crédito e débito é muito mais complexo do que parece, por isso as taxas são tão altas

Os processos dos cartões não ocorrem dentro do SPB, eles ocorrem através das redes desenvolvidas especificamente pelas bandeiras, como a Visa e Mastercard, por exemplo.

Como funciona?

  • Um cliente passa o cartão na “maquininha”, também conhecida como POS (do inglês, Point of Sale), que captura os dados da transação para o credenciador;
  • O credenciador recebe uma mensagem, grava e manda para a bandeira, que registra esse valor e manda para o emissor do cartão. Normalmente, um cartão é emitido por um banco, que tem uma análise do crédito daquela pessoa.
  • Uma vez que a mensagem é recebida, o banco faz a seguinte análise:
  • Se for cartão de crédito: é verificado se o cliente tem um limite de crédito e se este não foi estourado, a transação é aprovada.
  • Se for cartão de débito: é feita uma consulta ao saldo na conta corrente e, se houver o valor, ele é debitado.

Também há “o processo ao contrário, no qual o emissor devolve a informação para a bandeira e sinaliza que a transação foi aprovada. Então, a bandeira comunica ao credenciador e este devolve ao POS a mensagem de aprovação,” Cassio exemplifica.

“Tudo isso ocorre em milisegundos. A Visa prega que o processo de transações da rede dela consegue processar até 40 mil transações por segundo, talvez seja o maior volume de transações que alguma network consiga fazer no mundo atualmente,” ele pontua.

“Em cada um desses trâmites entre as bandeiras, adquirentes e subadquirentes, diversos players ganham um pedaço de todo o montante que está sendo trafegado. Ou seja, tem muita gente ganhando um pouquinho de cada coisa que, no final, acaba encarecendo o produto na ponta,” Cassio diz.

Além disso, o mercado fica preso às rígidas regras das bandeiras, o que impossibilita a competição e o surgimento de novos modelos de negócio. “As estruturas [das bandeiras] são muito bem montadas, mas muitas vezes barram a inovação e não conversam diretamente com os fluxos de dinheiro, pelo menos não nesse momento,” ele complementa.

Hoje, os fluxos de dinheiro envolvem diversos passos e players, o que torna a operação muito mais complexa do que ela era há poucos anos. Acontece que o desenho atual desses movimentos foi criado pelas bandeiras, ou seja, não atende eficientemente aos novos modelos de negócio como marketplace e e-commerce, o que sufoca a inovação. Ou seja, não inclui todos clientes, por exemplo, quem não tem cartão de crédito, só consegue comprar online via boleto, pois o débito é pouco aceito em transações online.

5. Tudo isso vai mudar com a chegada do Pix

Ao contrário do trágico desfecho de Drummond de Andrade, a nossa história com o Pix é promissora.

Começamos com um enorme barateamento do processo. “Para os participantes principais que se conectarem ao SPI, como os grandes bancos, o custo do BC vai ser de 1 centavo a cada 10 transações. Hoje, quanto um banco cobra uma TED? Cobra de R$ 3,00 a R$ 11,00. ao cliente, mesmo sendo baixo para os bancos. Com o Pix, esse custo para o banco deve ser muito baixo, por ter menos intermediários, então vai ser difícil cobrarem valores muito altos,” Cassio pondera. Isto é, esta queda brusca de custos para os players do mercado deve resultar em preços reduzidos para os usuários finais também, mesmo levando em conta os custos de processamento do Pix e eventuais taxas das instituições.

Os processos de conciliação também vão ficar muito rápidos e simples com a utilização de QR codes. “Isso vai mudar bem o mercado, na minha opinião, é até um ataque à estrutura atual dos cartões e às estruturas de TED que existem hoje no mercado… Eu vejo que o Pix pode acabar com a TED e DOC em um ano ou dois, no máximo, claro que depende dos preços que as instituições financeiras vão cobrar, para o usuário final, pelo PIX,” ele prevê.

Já para as grandes empresas de cartões, Cassio enxerga um desafio: “vão ter que se readaptar nesse mundo, talvez criar uma rede própria, algo que trabalhe em paralelo ao Pix, mas para mim, é uma grande ameaça.”

Segundo Cássio, nós temos cerca de 4 bilhões de boletos emitidos por ano. O boleto também será fortemente impactado pelo Pix. Isso porque o Pix oferece um processo de emissão, liquidação e segurança otimizado e atualizado às necessidades contemporâneas.

Pix: um grande baque para a velha forma de processar e receber pagamentos

Fica claro que os modelos atuais de pagamento serão transformados. Com o Pix promovendo uma drástica redução de custos, simplificação do processo e o principal fator: instantaneidade, as barreiras que eram sólidas e pareciam indestrutíveis há décadas serão derrubadas.

Temos muito o que aprender, desaprender e reaprender com a disrupção que o Pix representa. Com o rompimento dessas amarras, o aumento de competitividade criará infinitas possibilidades de novos modelos de negócio. Para que tudo isso aconteça, há todo um respaldo legal, que abordaremos no próximo capítulo.

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