Como o e-commerce tem ajudado o efeito batom florescer em meio à pandemia Covid-19

Escrito por: SpinPay

Em tempos de crise, pequenos luxos podem ajudar a acalmarmos as nossas almas. O Brasil aderiu ao autocuidado como forma de lidar com distanciamento físico, isolamento e uma economia periclitante.

Parede com marca de batom

Lá em 2001, quando Leonard Lauder, então presidente emérito e herdeiro da Estée Lauder, cunhou o termo “lipstick index” [1] (efeito batom), para explicar o aumento de vendas de batom apesar da crise econômica, a situação era diferente da que estamos vivendo. As pessoas não estavam confinadas às suas casas, estavam em busca de novos empregos e queriam realçar seus atributos. O cenário da quarentena, por vez, não tem precedentes. Por isso, decidimos explorar potenciais reflexos do efeito batom, em meio ao Covid-19, e conversamos com grandes nomes da indústria para entender a atual conjuntura.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) [2], João Carlos Basílio, o Brasil é quarto maior mercado do mundo dessa indústria, formalmente falando, e o terceiro, se considerarmos o mercado informal, isto é, 15-20% do que se comercializa de cosméticos é feito na informalidade . Até o Covid-19 chegar ao Brasil, a venda de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal era feita através de venda direta e representantes de vendas, com uma tímida penetração de 3% no e-commerce.

Desde o decreto de fechamento de todo o comércio e serviços não essenciais “os principais canais de venda de perfumes e cosméticos, como franquias e venda direta, naturalmente sofreram uma queda nas vendas, dada a impossibilidade das pessoas circularem”, Basílio explicou. Já a indústria de higiene pessoal deve bater R$1,5 bi para mais, apenas com a venda de álcool em gel, dependendo de como a pandemia se estender, comparado ao modesto faturamento de R$100,000 no ano passado—“diria que o efeito é ‘álcool gel’, uma intensificação dos hábitos de higiene pessoal do brasileiro, que sempre foram positivos”, o presidente da ABIHPEC completou.

Ritual do autocuidado

Empresas que tinham foco maior em vendas diretas e representantes tiveram que migrar suas estratégias para soluções online. Mariana Busani, gerente de e-commerce da Eudora [3], decidiu criar campanhas digitais e tutoriais de autocuidado para estimular as clientes a continuarem se cuidando e a criarem rituais como maneira de se desligarem um pouco da dura realidade que estamos vivendo.

O “efeito autocuidado” desencadeou o desejo de consumo das clientes e resultou em um rápido aumento de vendas online. “Apesar de cosméticos se encaixarem na categoria ‘não essencial’, notamos uma grande demanda por batom, kits de banho e a base que acabamos de lançar”, Busani explicou.

O ‘efeito salão de beleza fechado’

Época Cosméticos [4], um dos maiores e-commerces de cosméticos teve um alarmante aumento de 150% de vendas no mês de abril, comparado a esse mesmo período ano passado.

A diretora geral da Época, Christiane Bistaco Rigotto, sugeriu os termos “efeito cabelo” ou “efeito skincare” para explicar a aceleração de vendas da empresa, apesar do alto índice de desemprego no país [5]. Ela também glorificou-se de boas notícias ao dizer que a empresa teve que contratar novos funcionários para dar conta da alta demanda.

“O hábito da brasileira de ir ao salão de beleza é muito forte”, Rigotto explicou. Com os cabeleireiros fechados, resta apenas o ‘faça você mesmo’. “Têm coisas anedóticas: a gente tem vendido muito retoque de raiz que sai na lavagem, fico pensando se as pessoas passam antes das videoconferências”, ela brincou e acrescentou que produtos de unha, que antes tinham um pequeno espaço, tiveram a demanda triplicada.

Oferecer frete grátis [6] é uma das formas mais convidativas para o e-commerce. Além de um comportamento orgânico dos consumidores, a diretora geral da Época também elucidou que a decisão da empresa de subsidiar frete grátis para todos itens de higiene pessoal, aumentou a venda de produtos de ticket-médio baixo, que não eram o forte pré Covid-19.

Autoestima como salvação

“O impacto positivo de cosméticos e perfumes na autoestima é cientificamente comprovado” declarou o presidente da ABIHPEC. Além disso, “toda vez que o Brasil passa por mais uma crise, as pessoas tendem a gastar com pequenos luxos como compensação de ter que aguentar uma geladeira velha ou carro usado por mais um tempo”, ele acrescentou, prevendo um cenário positivo para a indústria pós quarentena.

“O Brasileiro é muito ligado à estética”, Rigotto explicou, “a sensação geral da população é que podemos estar ‘perdendo tudo’ mas não podemos perder a autoestima”, ela concluiu.

Se a tendência agora é autocuidado e salões de beleza caseiros, a previsão pós quarentena é a de se reinventar e se turbinar, estendendo o período de duração do efeito batom. Mesmo com o comércio in loco voltando a operar normalmente, a diretora geral da Época acredita que a nova base de clientes que aderiu ao e-commerce vai continuar comprando online, dada a experiência positiva e a conveniência que essa plataforma traz.

Foto:

[1] Foto por Etienne Girardet em Unsplash.

Fontes:

[1] https://business.time.com/2011/09/14/what-lipstick-tells-us-about-the-economy/

[2] https://abihpec.org.br/

[3] https://www.eudora.com.br/

[4] https://www.epocacosmeticos.com.br/

[5] https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/05/05/bofa-eleva-a-14-projecao-para-desemprego-em-2020-no-brasil-por-impactos-precoces-do-coronavirus.htm

[6] https://blog.spinpay.com.br/isto_nao_e_um_frete_gratis/

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